Por onde começar a escrever quando há tanta coisa para dizer e por transmitir que nem sei onde está o fim.
Começo por me apresentar, sou o Nuno Cruz, tenho 21 anos, sou estudante de Engenharia de Telecomunicações Electrónica e Computadores no ISEL (Instituto Superior de Engenharia de Lisboa) e como a grande maioria dos jovens da minha idade tenho sonhos de transformar o mundo. Não o meu mundo, mas o nosso mundo. Bom aqui discordo de mim mesmo porque o nosso mundo é o meu também. Volto a discordar quando falo na maioria dos jovens da minha idade, porque afinal os interesses dessa maioria são distintos. Mas bom, pelo menos todos os que partiram nestas Missões voluntariamente, e não voluntariamente também, mas que ousaram fazê-lo, especialmente os 11 colegas que comigo foram, estão todos de parabéns!
O acto de ousar implica ir para a frente, ter a coragem de, empreender e foi isto mesmo que nós fizemos, empreendemos um trabalho moroso mas que já deu inúmeros frutos. Como tal distancio a nossa Missão, ou o nosso papel, do substantivo masculino ou feminino mais comummente conhecido por Herói ou Heroína.
No início deste ano trabalhámos os 12 por e pelas irmãs Doroteias, mas porque não dizer (uma vez que também é verdade) também trabalhámos por nós.
Queríamos ver e conhecer uma nova realidade, queríamos ver com os olhos, o coração e a lógica o que chega a casa pela televisão e vem escrito nos livros sobre o assunto. Este assunto é África, mas como, na minha opinião, deve ser mais do que um assunto, deve ser uma vivência, uma experiência vivida (passo o pleonasmo) e sentida para se poder dar um testemunho real, decidi partir.
Felizmente mais 11 bravos e bravas decidiram fazê-lo comigo.
Lutámos, trabalhámos, mesmo quando a esperança parecia perdida continuámos sempre de cabeça erguida, uns mais que outros, mas é por isso que somos um grupo, para nos apoiarmos e avançarmos juntos.
O objectivo era claro, primeiro conseguir chegar ao destino e depois, lá, fazer o que fosse preciso dentro do projecto definido.
São muitas as complicações para chegar onde queremos, desde o dinheiro que temos de juntar, até aos vistos de entrada, passando pelos bilhetes de avião. Mesmo que quiséssemos dizer que um era mais importante que outro não o podíamos fazer, pois sem a perfeita conjugação de todos eles a Missão ficava pelo caminho. Por isso as frentes são muitas e as mãos são poucas. Contudo a vontade, a determinação e as mãos que surgem onde menos se espera às vezes, foram o pão que nos alimentou e financiou, e ergueu e permitiu chegar ao destino desejado e ansiado.
Uma vez chegados a Angola começa o choque cultural e racial todo. Somos diferentes em cor, temos condições de higiene, saúde e estruturais (de estrutura civil entenda-se) superioras em quase todos os campos, pelo menos perante a maioria da população de Angola (refiro-me aos 70 por cento que são pobres). Ora em 16 milhões de pessoas, mais ou menos, podem ver que 70 por cento é muita gente a viver mal.
Quando me refiro a viver mal, refiro-me a lavar-se e a beber água imunda, água infestada de lixo, lodo, lama, que vem directamente, pelo menos nas cidades grandes, dos esgotos (quando os há) existentes nos “mosseques” e casas apalaçadas das mesmas. Nas cidades mais pequenas provém dos rios que estão infestados de bactérias e microrganismos, ou de charcos que se usam para lavar as roupas também.
Quando falo em viver mal, refiro-me ainda ao caos urbanístico existente nestas cidades. Se o que lá deixámos foram casas, que na generalidade e apesar de muito degradadas ainda estão de pé, actualmente vêem-se barracas (cubatas) de adobe e coberturas de zinco ou capim. Vêem-se casas por todo o lado como se se fossem amontoando sem sentido estético ou geométrico, porque na verdade foi isso que aconteceu, fruto das guerras da independência e civil.
Quando me refiro a viver mal refiro-me também, e mais importante, ao facto de existir um grande caos sociocultural. Existe sem dúvida um caos social enorme, diria mesmo gigantesco, que potenciou e ainda hoje potencia conflitos socioculturais dentro das cidades e proporciona uma grande criminalidade (conjuntamente com os motivos anteriores) entre a população, que nestas cidades maiores é constituída essencialmente por refugiados de diversas zonas do pais, com diferentes culturas, crenças e mesmo etnias.
Apesar de tudo isto posso afirmar com convicção que são felizes, pelo menos no campo, ou no meio do mato como é apelidado o campo pelos nativos. Posso afirmar também que neste meio do mato vi o melhor de Angola e das suas gentes. Por contraste com a degradação moral, social e física verificada nas cidades.
Que resta para além da felicidade? Julgo que só o sentimento de pobreza e miséria vivida e como tal, para contrariar estes mesmos sentimentos, há que ser feliz. Por tudo e por nada se faz uma festa, a música escorre pelos ouvidos o dia todo, uma vez que a água não o pode fazer pela garganta, nem por lado nenhum. Os autocarros, que não são mais do que camionetas grandes de caixa aberta, por mais cheios que vão de roupas, comidas, objectos e pessoas, não deixam de deixar cânticos e palmas pelo ar nas várias localidades e estradas por onde vão passando. Este é o espírito que se vive perante a dificuldade de erguer seja o que for, um sentimento de esperança e aceitação, mas que ao mesmo tempo traz alegria e força para continuar. É duro chegar ao fim de uma viagem com o corpo dorido e os pulmões cheios de pó, mas é mais importante o facto de se ter chegado são e salvo ao destino, sem tiros, sem perdas pessoais de objectos, sem o que tinham à partida. Quanto ao pó, esse os dias vindouros encarregar-se-ão de o fazer desaparecer, já que a água o não faz sair.
Se o mal de um país é não andar para a frente, em Angola o mal é andar depressa de mais para uns e devagar de mais para outros!
Ouvi esta expressão um dia (citada já por alguém, pelo que não sei precisar o seu autor): "Às vezes é preciso andar para trás para se poder caminhar para frente, pois repara, os canhões que disparam mais longe são os que têm maior recuo!"
Pergunto-me até que ponto a veracidade desta frase é tida em conta naquele país, a que confortavelmente e fraternalmente apelidamos de irmão, mas quando surge a verdadeira oportunidade de ajudar, com voluntários, com trabalho, com tudo, deixamos de ser fraternos e irmãos para passar a ser colonos mais uma vez!
Sim, colonos, o interesse é monetário e mais uma vez os direitos humanos são esquecidos!
Ser interesseiro é uma qualidade humana – sim, qualidade – pois faz com que tenhamos vários desejos que nos levam, à humanidade e a cada um, para a frente.
Infelizmente podemos falar de Angola como de qualquer outro país de África, são poucas as excepções a este colonialismo moderno.
Angola tem o mal inserido nas suas raízes mais profundas. Tem o mal na sua riqueza natural, falo de ouro, dourado ou preto, falo de diamantes e madeiras exóticas. Como poderia falar disto em quase toda a África.
Que papel podemos então nós ter para alterar isto? O que dizemos na maioria dos casos é, nenhum! Assim temos a desculpa perfeita para continuar a nossa exploração, ou colonização económica, tão à moda do século XX e início deste novo século. Quando falo em nós, falo do mundo Ocidental.
Se bem que os nossos "concorrentes" no mundo Oriental comecem a pensar e a fazer o mesmo, lembro-me por exemplo da China...
A solução passa, portanto, por dizer e falar, por mostrar o que está errado, por lutar pela verdade! Passa por ir ver com os olhos o que se passa, passa por perceber quem são aquelas pessoas, o que as motiva a trabalhar nas condições precárias (não sei se se pode aplicar uma palavra com tantas condições estruturais quer físicas quer mentais às realidades vividas em África, como noutros países do mundo) em que têm de suportar horas de sol, de água, de frio, de mosquitos e de tanta outra coisa que não nos passa agora pela cabeça. Temos de ver e sentir na pele o que são as consequências de um constante estado de guerra (obviamente não falo em estar no meio da guerra, seria necessária muita coragem para isso, mas falo em ver o que ela criou e no que ela fez, e ainda faz, às pessoas).
Sem querer assumir nenhum protagonismo para os voluntários desse mundo fora que estiveram e estão sujeitos a tudo, tenho de admitir que somos raros e especiais, pois não é qualquer um que se disponibiliza e se dispõe da forma que o fizemos. Uns mais que outros, mas todos com o intuito de fazer o mesmo trabalho, sejamos Católicos, Muçulmanos, Cristãos, Judeus, entre tantas outras religiões e mesmo fora de qualquer religião, o intuito é ajudar. Por isso temos de ser reconhecidos e temos de ter orgulho no facto de agirmos e sermos úteis e fiéis a nós nas nossas buscas pessoais e na ajuda prestada a quem dela vai dependendo e precisando e ao que vamos ganhando de bagagem cultural e humana.
Temos de agir mais do que falar, eu já lá fui, e quero voltar. Eu já falei com as pessoas e ouvi o que tinham para dizer, eu já estou um bocadinho mais dentro de África.
Mas sozinho não tenho a força para mudar nada. Apenas para ir alertando, apenas para ir testemunhando e tentar levar mais gente como eu fui. Assim seremos mais e seremos ouvidos.
Apercebi-me disto à medida que o tempo ia passando na minha estadia. Enquanto uns, por cada dia que passava, festejavam só faltar x dias para regressar, eu sofria por ver a pequenez, a insignificância aparente do trabalho que estávamos a fazer. Digo isto pelo simples motivo de que muita gente parte com ideias de mudar o mundo, de revolucionar este mundo egoísta, como eu parti, quando afinal o sítio onde estamos e onde agimos é um grão de areia comparado com o resto. Pois bem, grão de areia ou não, se conseguirmos melhorá-lo, se o conseguirmos ajudar a erguer-se e ser "O" grão de areia, já estamos a fazer muito. Se fizermos isto em vários grãos de areia, sem dúvida que a praia fica mais bonita, sem dúvida que este mundo fica mais enriquecido.
Não o fazemos por busca ou glória pessoal, pelo menos eu não o fiz e julgo que a maioria não o faz, fazemos sim por sermos Homens e nos movimentarmos num mundo de Homens. Com diferentes ideologias e convicções mas com um objectivo último comum, ser felizes.
Assim, partindo deste objectivo e sabendo que existem vários caminhos para se ser feliz, cabe-nos a nós tentar perceber e conjugar o melhor caminho. Sim, a nós, não quero ser pretensioso mas ouso ser realista! Nós fomos lá e sabemos o que se passa, nós movimentámo-nos cá e sabemos o que se passa, podemos fazer a diferença, podemos lutar por essa diferença. É isso que temos andado a fazer, uns há mais tempo que outros, mas todos nesse caminho. Temos a responsabilidade de partilhar e testemunhar sobre o que vimos e provar e mostrar que existem realidades e formas de estar e ser diferentes da nossa!
O desafio é sermos iguais nas nossas desigualdades, procurar o entendimento onde parece tudo discordar e é isso que temos feito ao longo dos séculos de história da raça Humana. Umas vezes conseguimos outras não, mas isso não impede esta busca constante.
O fazer a diferença é ajudarmos com os nossos valores, com as nossas premissas, por actos e gestos, não só por palavras (sem acção as palavras são vãs, são despojadas de tudo). Podem acusar-nos de não termos os valores correctos. É uma acusação válida, mas covarde. Enquanto seres Humanos temos a obrigação de procurar na nossa vida e em exemplos de outras vidas o que são os valores mais correctos para nós, felizmente temos essa oportunidade, essa liberdade e essa capacidade. Como tal e apesar de vivermos em sociedades que nos impõem valores e princípios, somos livres de navegar por eles e escolhê-los e aplicá-los. Aplicá-los no dia-a-dia, quando falamos, quando fazemos algo.
E para quem julga que poder escolher os valores errados é possível, resta apenas a essa pessoa avançar com eles e esperar que os outros estejam suficientemente atentos para perceber e demover essa pessoa, se isso não acontecer é porque estamos em baixo, estamos desprevenidos e ainda não estamos prontos para evoluir. Sozinhos, não vamos a lado nenhum, sem apoio e sem união ficamos onde estamos, seja para o bem ou para o mal, por isso quando estivermos todos juntos poderemos avançar. Este é e será sempre o grande problema desta Terra de gente sem cor.
Como vêem nenhuma religião aqui é abordada, mas apenas uma filosofia humanística, em que o Homem é o início, o centro e o fim.
Eu confio no ser Humano, na sua capacidade de amar e de ser fiel, de confiar e respeitar. Sei que nem sempre é assim, mas luto por isso e é este o exemplo e os valores que quero transmitir.
Foi o que fiz em Angola durante um mês e o que faço cá.
Se há quem seja egoísta e não ligue aos outros, seja por comodismo, por distracção ou por desinteresse (não sei qual deles pior), também há o oposto e que nos leva avante. A pouco e pouco a consciencialização geral vai aparecendo e convencendo.
Queria salientar ainda a dificuldade extrema que é ir para Angola em voluntariado (falo deste país pois é o exemplo que conheço) sem ser através de uma entidade religiosa! Quero com isto dizer que tanto o governo de lá, por dificultar a entrada das ONG (Organizações Não Governamentais), como as próprias ONG que vivem tempos difíceis (umas associadas a corrupções, outras por terem de se adaptar às constantes alterações governamentais dos seus países de origem ou dos países onde actuam) têm contribuído para um descrédito das causas Humanitárias pelos Países Africanos e, em geral, pelo mundo fora. Isto faz com que estas organizações, que tanto podiam trazer a nível ideológico e prático (uma vez que a grande maioria das instituições religiosas que acolhem e enviam Missionários o façam á luz e sombra dos seus principios religiosos, ou seja têm de se ter crenças e ideologias semelhantes para se poder entrar nestas instituições -felizmente no nosso caso existiu uma abertura enorme e de saudar por parte das Irmãs Doroteias), tenham pouca presença em muitos sítios, e dificulta o crescimento e proliferação de movimentos sociais desprovidos de religião, mas apenas com um fim, a obra em si. Fica assim aberto todo o campo às religiões para ocuparem e expandirem a sua Fé. Apesar de tudo, cada vez que um voluntário que seja vá por uma instituição de cariz religioso, por menos que o seja, não se liberta do teor e de ser associado a essa instituição. Como tal, todo o trabalho desenvolvido é associado à instituição representada pelo voluntário. Deveria isto pesar na decisão de escolha de uma instituição para se fazer voluntariado? Bom, se tivermos em conta que o fim é a obra, independentemente dos meios, talvez não. Mas se quisermos ir mais longe e trazer a confiança das pessoas para algo independente, sim.
Se formos trabalhar em troca de nada e conseguirmos ser recebidos para poder fazer esse trabalho, sem demais complicações, como acontece actualmente com quem trabalha pela Igreja (por exemplo), a coisa seria viável. Contudo é complicado entrar num país e começar a trabalhar, especialmente num país onde a corrupção é o segundo ordenado. As pessoas suspeitam e desconfiam, e porque não o fazer após anos a serem exploradas por nós? Esta é parte da herança que lá deixámos... Restam apenas as instituições de carácter religioso que permaneceram fortes e firmes, que não fugiram e voltaram logo aos seus locais de trabalho antigos. Estas congregações permaneceram fiéis às populações e lutaram pelos seus direitos, estão lá sempre para o bem ou o mal, logo são de confiança. Qualquer ONG ou organização que queira ter sucesso, julgo que tem de seguir este exemplo e ficar por muitos anos a lutar por e com as pessoas.
Como criar as condições e iniciar um projecto, avisem-me quem souber que estou interessado.
Voltando a Angola, ao Freixiel onde ainda me encontro apesar de estar aqui na minha Lisboa, na minha verdadeira e primeira casa (vou ainda mais longe afirmando que é a cidade mais bonita do mundo, em todos os sentidos...).
Sinto uma enorme gratidão e felicidade por ter partilhado os mesmos sítios que as Irmãs Doroteias que levantaram a tanto custo o projecto "Melika", e que estão a levar educação e formação a uma zona de refugiados essencialmente, a uma zona rural e sem posses monetárias.
Mas se todos fossem ricos na simplicidade daquelas gentes, estaríamos tão longe moralmente, estaríamos no paraíso julgo eu, se tal existisse.
Se o projecto é de todas, e por isso deixo sem rosto qualquer irmã, pois teria de agradecer a quem não sei o nome, tal é a massa humana por trás da congregação. Se vos falo sem rosto, apenas por escrito pois acho que falo, em termos de experiência, por centenas, milhares de voluntários por todo o mundo, pois teria de agradecer a todos. Distingo claramente duas Irmãs Doroteias, cujos nomes não direi, não só por respeito, mas também por saber que me alenta e conforma muito saber que aquelas mulheres estão lá e cá a tomar as rédeas deste projecto e a garantir que ele segue em frente. Mais que garantir a sua continuidade, tenho de estar, bem como o mundo no geral, grato por elas terem ousado levantar, levar para a frente tal projecto. Isto sim assemelha-se à definição de herói, mas, mais uma vez por respeito a elas, não farei essa distinção, pois a sua simplicidade, o seu Amor por esta causa é tanto que apelidá-las de algo mais que Irmãs Doroteias seria exceder, por excesso ou defeito, o que elas simbolizam e na verdade são!
Lembro-me de sorrisos, lembro-me de rostos fechados que se abriam perante nós, lembro-me de cânticos, danças, lembro-me do prazer sentido pelos meus explicandos ao perceber algo que eu expliquei, lembro-me do êxtase sentido ao ver que eles perceberam realmente, lembro-me das brincadeiras e correrias, lembro-me de chegar ao fim do dia coberto de terra vermelha dos pés à cabeça, lembro-me do sol nos seus vários crepúsculos, das fotos, dos momentos em grupo e grupos (discussões, partilhas, gritos, risos, choros, confidências, improvisos, disputas, erros, objectivos atingidos, e muita mais coisa que não coloco para não estender mais o texto), lembro-me das galinhas aos saltos no jipe, lembro-me das estradas (ou melhor dos caminhos alternativos e dos buracos, porque não existem estradas...), lembro-me do sabor da fruta, lembro-me dos cheiros (da terra, do ar, das plantas, das pessoas, dos edifícios), lembro-me da Malária (porque a apanhei, embora apenas com um bicho por campo. Por outras palavras, não é nada comparativamente ao que eles estão habituados e é só para dizer que ir a Roma sem ver o Papa é como ir a África e não apanhar Malária), lembro-me de mil e uma coisas que não posso aqui transmitir porque não tenho palavras nem competência para expressar tudo.
A maior frustração de voltar é, para além de ser tudo diferente, não conseguir transmitir os sentimentos, as emoções!
Posso dizer o que fiz, dei explicações de Matemática, História e Física, ouvi as populações (as suas necessidades e problemas, o que lhes corre bem e menos bem), falei com as pessoas das aldeias e cidades por onde passei e partilhei a vida delas, deixei-as tocar em mim como tentei tocar nelas e algumas deixaram. Por outras palavras criei lá raízes e quando assim é custa depois mais partir. No entanto o querer transmitir os momentos em que fui criando estas raízes, os momentos em que senti e vivi as emoções fica tão incompleto por não conseguir passar estes sentimentos. Que sendo tão humanos esses sentimentos, só perante certas circunstâncias podemos realmente vivê-los (porque os sentimos também) que quase tenho vontade de não o fazer. Mas depois sinto a obrigação e o dever de os partilhar porque é para isso que tenho esta oportunidade, é para isso que lá fui, e é para isso que espero lá conseguir voltar.
Já disse praticamente o que tinha a dizer, que a maioria dos jovens não estão muito interessados em ver o mundo como ele realmente é.
Que se vive um pouco uma crise de valores pelo mundo fora.
Que se está a viver num mundo essencialmente material e não social e de direitos humanos, por mais floreado que se coloque à volta do assunto.
Que os políticos têm de olhar para casa urgentemente e reformular a forma de a ver e a interacção dela com o mundo, essencialmente o mundo mais pobre.
Que as pessoas têm de começar a interessar-se mais pelo que as motiva e o que as cativa na sua acção social perante a sociedade em que se movem e as sociedades e culturas existentes por este vasto areal, do qual somos um pequeno grão de areia.
Que por mais insignificante que seja o sítio onde nós, individualmente ou em grupo, trabalhemos, estamos a contribuir para algo melhor e maior, uma Humanidade e um Mundo que por si só não vão a lado nenhum.
Que urge a necessidade de ir aos sítios e ao cerne das questões para as tentar resolver em vez de se andar a evitar e a contornar o que mais incomoda.
As explorações e abusos existem, mas os direitos Humanos foram criados para alguma coisa, bem como a nossa vontade e a nossa voz que se pode fazer ver e ouvir onde quisermos.
Usemos esta oportunidade que temos para fazer a diferença!
Ousemos partir, ousemos voltar e testemunhar!
Mas que quando ousarmos sejamos firmes e fortes nas nossas convicções e nas abordagens e aproximações que fizermos às populações e pessoas das diferentes culturas, raças e crenças que encontrarmos. Não se trata de uniformizar o mundo, trata-se de saber reconhecer as nossas diferenças e com elas caminhar para uma felicidade comum. Trata-se, no fundo, de escalar a pirâmide de Maslow, aproveitando para isso as divergências e diferenças de cada cultura, raça e crença, transformando assim o Homem no que ele é verdadeiramente, o exemplo de que pode ser feito!
Façamos a união que traz a força e ajudemos a erguer o mundo, desta forma ficaremos imortais neste mundo, nem que seja na memória de quem foi ajudado ou de quem ajudou por causa do nosso exemplo, o fim não é ser imortal mas tornar o mundo imortal pelas nossas acções. Quando digo mundo, nesta última frase, já digo a Humanidade pois o estado é tal que ambas as palavras têm o mesmo significado.
Ao reler este texto vejo que sou, como sempre suspeitei, um idealista. Contudo só ganho eu e todos se partilhar as minhas ideias com vocês. Pode ser que alguém se deixe cativar e enverede por um caminho semelhante ao meu e ao de tantos outros Homens e Mulheres que dão o corpo, a cabeça e a alma por causas tão dignas e próprias como esta.
Obrigado por terem lido com paciência até ao fim e deixem críticas, sugestões e perguntas em: nunocru@gmail.com.
Um grande bem hajam,
Nuno Cruz
quarta-feira, 19 de setembro de 2007
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5 comentários:
Nuno, adorei o teu texto! Tal como tu, tembém eu parti em missão, no meu caso para Moçambique.
Ao ler esta descrição de todos os momentos que passaste em projecto,de tudo aquilo que viveram, que sentiram, que lutaram, foi como se, de repente, estivesse de novo em Moçambique!Naquela Terra que nos prende, que nos cativa... Vi-me no meio daquelas "gentes", dos seus sorrisos, dos seus sofrimentos,...
É, sem dúvida, um texto que transborda... Muito obrigada pelo teu testemunho!
Espero que consigas realizar todos esses projectos que queres desenvolver, e se puder ajudar, conta comigo!
Vai dando notícias!
Até breve,
Helena (EA)
Caro Jovem:
Gostei de ler o seu texto. Gostava de ver fotos de Freixiel Angola, onde vivi vários anos, saí de lá em Outubro de 1975 e não voltei lá.
Os meus cumprimentos.
Francisco A. Mesquita
Que belo texto, PARABÉNS Nuno, poderia ser também "Angola e Nós", pois contigo partiram mais 11 corajosos jovens, que concerteza, com a mesma intensidade fizeram o seu melhor nesse "mundo" tão diferente do nosso, pela tua descrição; Eu só conheço pelas imagens que nos entram em casa pela "caixinha mágica TV", conforme tu também comentas. Estão todos de parabéns, porque dentro de cada um de vocês há algo de diferente.... "AJUDA AO PRÓXIMO" ....que neste mundo onde vivemos está no esquecimento......Adoraria ver fotos. Abraços ao grupo e não fiques por aqui, avancem a nossa juventude dá-nos força....
Abraços a todos
Margarida
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Adorei o seu o relato.Tudo isso me comove,pois sempre vivi em FREIXIEL.Como imagina andei por todos esses sítios,onde ainda tenho na Matala a minha Francisca,irmã de criação.Trabalho idêntico ao seu fiz eu enquanto ai vivi.Quantas noites á luz de lanternas a petróleo ensinei a ler e a escrever aos empregados de casa e outros ,todos eles meus amigos dos quais tenho muitas saudades.Força,nunca se arrependerá.ZÉ(ZEZINHO)SILVA
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