quarta-feira, 19 de setembro de 2007

Angola e Eu!

Por onde começar a escrever quando há tanta coisa para dizer e por transmitir que nem sei onde está o fim.

Começo por me apresentar, sou o Nuno Cruz, tenho 21 anos, sou estudante de Engenharia de Telecomunicações Electrónica e Computadores no ISEL (Instituto Superior de Engenharia de Lisboa) e como a grande maioria dos jovens da minha idade tenho sonhos de transformar o mundo. Não o meu mundo, mas o nosso mundo. Bom aqui discordo de mim mesmo porque o nosso mundo é o meu também. Volto a discordar quando falo na maioria dos jovens da minha idade, porque afinal os interesses dessa maioria são distintos. Mas bom, pelo menos todos os que partiram nestas Missões voluntariamente, e não voluntariamente também, mas que ousaram fazê-lo, especialmente os 11 colegas que comigo foram, estão todos de parabéns!

O acto de ousar implica ir para a frente, ter a coragem de, empreender e foi isto mesmo que nós fizemos, empreendemos um trabalho moroso mas que já deu inúmeros frutos. Como tal distancio a nossa Missão, ou o nosso papel, do substantivo masculino ou feminino mais comummente conhecido por Herói ou Heroína.

No início deste ano trabalhámos os 12 por e pelas irmãs Doroteias, mas porque não dizer (uma vez que também é verdade) também trabalhámos por nós.
Queríamos ver e conhecer uma nova realidade, queríamos ver com os olhos, o coração e a lógica o que chega a casa pela televisão e vem escrito nos livros sobre o assunto. Este assunto é África, mas como, na minha opinião, deve ser mais do que um assunto, deve ser uma vivência, uma experiência vivida (passo o pleonasmo) e sentida para se poder dar um testemunho real, decidi partir.
Felizmente mais 11 bravos e bravas decidiram fazê-lo comigo.

Lutámos, trabalhámos, mesmo quando a esperança parecia perdida continuámos sempre de cabeça erguida, uns mais que outros, mas é por isso que somos um grupo, para nos apoiarmos e avançarmos juntos.
O objectivo era claro, primeiro conseguir chegar ao destino e depois, lá, fazer o que fosse preciso dentro do projecto definido.

São muitas as complicações para chegar onde queremos, desde o dinheiro que temos de juntar, até aos vistos de entrada, passando pelos bilhetes de avião. Mesmo que quiséssemos dizer que um era mais importante que outro não o podíamos fazer, pois sem a perfeita conjugação de todos eles a Missão ficava pelo caminho. Por isso as frentes são muitas e as mãos são poucas. Contudo a vontade, a determinação e as mãos que surgem onde menos se espera às vezes, foram o pão que nos alimentou e financiou, e ergueu e permitiu chegar ao destino desejado e ansiado.

Uma vez chegados a Angola começa o choque cultural e racial todo. Somos diferentes em cor, temos condições de higiene, saúde e estruturais (de estrutura civil entenda-se) superioras em quase todos os campos, pelo menos perante a maioria da população de Angola (refiro-me aos 70 por cento que são pobres). Ora em 16 milhões de pessoas, mais ou menos, podem ver que 70 por cento é muita gente a viver mal.

Quando me refiro a viver mal, refiro-me a lavar-se e a beber água imunda, água infestada de lixo, lodo, lama, que vem directamente, pelo menos nas cidades grandes, dos esgotos (quando os há) existentes nos “mosseques” e casas apalaçadas das mesmas. Nas cidades mais pequenas provém dos rios que estão infestados de bactérias e microrganismos, ou de charcos que se usam para lavar as roupas também.
Quando falo em viver mal, refiro-me ainda ao caos urbanístico existente nestas cidades. Se o que lá deixámos foram casas, que na generalidade e apesar de muito degradadas ainda estão de pé, actualmente vêem-se barracas (cubatas) de adobe e coberturas de zinco ou capim. Vêem-se casas por todo o lado como se se fossem amontoando sem sentido estético ou geométrico, porque na verdade foi isso que aconteceu, fruto das guerras da independência e civil.
Quando me refiro a viver mal refiro-me também, e mais importante, ao facto de existir um grande caos sociocultural. Existe sem dúvida um caos social enorme, diria mesmo gigantesco, que potenciou e ainda hoje potencia conflitos socioculturais dentro das cidades e proporciona uma grande criminalidade (conjuntamente com os motivos anteriores) entre a população, que nestas cidades maiores é constituída essencialmente por refugiados de diversas zonas do pais, com diferentes culturas, crenças e mesmo etnias.
Apesar de tudo isto posso afirmar com convicção que são felizes, pelo menos no campo, ou no meio do mato como é apelidado o campo pelos nativos. Posso afirmar também que neste meio do mato vi o melhor de Angola e das suas gentes. Por contraste com a degradação moral, social e física verificada nas cidades.

Que resta para além da felicidade? Julgo que só o sentimento de pobreza e miséria vivida e como tal, para contrariar estes mesmos sentimentos, há que ser feliz. Por tudo e por nada se faz uma festa, a música escorre pelos ouvidos o dia todo, uma vez que a água não o pode fazer pela garganta, nem por lado nenhum. Os autocarros, que não são mais do que camionetas grandes de caixa aberta, por mais cheios que vão de roupas, comidas, objectos e pessoas, não deixam de deixar cânticos e palmas pelo ar nas várias localidades e estradas por onde vão passando. Este é o espírito que se vive perante a dificuldade de erguer seja o que for, um sentimento de esperança e aceitação, mas que ao mesmo tempo traz alegria e força para continuar. É duro chegar ao fim de uma viagem com o corpo dorido e os pulmões cheios de pó, mas é mais importante o facto de se ter chegado são e salvo ao destino, sem tiros, sem perdas pessoais de objectos, sem o que tinham à partida. Quanto ao pó, esse os dias vindouros encarregar-se-ão de o fazer desaparecer, já que a água o não faz sair.

Se o mal de um país é não andar para a frente, em Angola o mal é andar depressa de mais para uns e devagar de mais para outros!
Ouvi esta expressão um dia (citada já por alguém, pelo que não sei precisar o seu autor): "Às vezes é preciso andar para trás para se poder caminhar para frente, pois repara, os canhões que disparam mais longe são os que têm maior recuo!"
Pergunto-me até que ponto a veracidade desta frase é tida em conta naquele país, a que confortavelmente e fraternalmente apelidamos de irmão, mas quando surge a verdadeira oportunidade de ajudar, com voluntários, com trabalho, com tudo, deixamos de ser fraternos e irmãos para passar a ser colonos mais uma vez!
Sim, colonos, o interesse é monetário e mais uma vez os direitos humanos são esquecidos!
Ser interesseiro é uma qualidade humana – sim, qualidade – pois faz com que tenhamos vários desejos que nos levam, à humanidade e a cada um, para a frente.
Infelizmente podemos falar de Angola como de qualquer outro país de África, são poucas as excepções a este colonialismo moderno.

Angola tem o mal inserido nas suas raízes mais profundas. Tem o mal na sua riqueza natural, falo de ouro, dourado ou preto, falo de diamantes e madeiras exóticas. Como poderia falar disto em quase toda a África.
Que papel podemos então nós ter para alterar isto? O que dizemos na maioria dos casos é, nenhum! Assim temos a desculpa perfeita para continuar a nossa exploração, ou colonização económica, tão à moda do século XX e início deste novo século. Quando falo em nós, falo do mundo Ocidental.
Se bem que os nossos "concorrentes" no mundo Oriental comecem a pensar e a fazer o mesmo, lembro-me por exemplo da China...

A solução passa, portanto, por dizer e falar, por mostrar o que está errado, por lutar pela verdade! Passa por ir ver com os olhos o que se passa, passa por perceber quem são aquelas pessoas, o que as motiva a trabalhar nas condições precárias (não sei se se pode aplicar uma palavra com tantas condições estruturais quer físicas quer mentais às realidades vividas em África, como noutros países do mundo) em que têm de suportar horas de sol, de água, de frio, de mosquitos e de tanta outra coisa que não nos passa agora pela cabeça. Temos de ver e sentir na pele o que são as consequências de um constante estado de guerra (obviamente não falo em estar no meio da guerra, seria necessária muita coragem para isso, mas falo em ver o que ela criou e no que ela fez, e ainda faz, às pessoas).
Sem querer assumir nenhum protagonismo para os voluntários desse mundo fora que estiveram e estão sujeitos a tudo, tenho de admitir que somos raros e especiais, pois não é qualquer um que se disponibiliza e se dispõe da forma que o fizemos. Uns mais que outros, mas todos com o intuito de fazer o mesmo trabalho, sejamos Católicos, Muçulmanos, Cristãos, Judeus, entre tantas outras religiões e mesmo fora de qualquer religião, o intuito é ajudar. Por isso temos de ser reconhecidos e temos de ter orgulho no facto de agirmos e sermos úteis e fiéis a nós nas nossas buscas pessoais e na ajuda prestada a quem dela vai dependendo e precisando e ao que vamos ganhando de bagagem cultural e humana.
Temos de agir mais do que falar, eu já lá fui, e quero voltar. Eu já falei com as pessoas e ouvi o que tinham para dizer, eu já estou um bocadinho mais dentro de África.
Mas sozinho não tenho a força para mudar nada. Apenas para ir alertando, apenas para ir testemunhando e tentar levar mais gente como eu fui. Assim seremos mais e seremos ouvidos.
Apercebi-me disto à medida que o tempo ia passando na minha estadia. Enquanto uns, por cada dia que passava, festejavam só faltar x dias para regressar, eu sofria por ver a pequenez, a insignificância aparente do trabalho que estávamos a fazer. Digo isto pelo simples motivo de que muita gente parte com ideias de mudar o mundo, de revolucionar este mundo egoísta, como eu parti, quando afinal o sítio onde estamos e onde agimos é um grão de areia comparado com o resto. Pois bem, grão de areia ou não, se conseguirmos melhorá-lo, se o conseguirmos ajudar a erguer-se e ser "O" grão de areia, já estamos a fazer muito. Se fizermos isto em vários grãos de areia, sem dúvida que a praia fica mais bonita, sem dúvida que este mundo fica mais enriquecido.
Não o fazemos por busca ou glória pessoal, pelo menos eu não o fiz e julgo que a maioria não o faz, fazemos sim por sermos Homens e nos movimentarmos num mundo de Homens. Com diferentes ideologias e convicções mas com um objectivo último comum, ser felizes.
Assim, partindo deste objectivo e sabendo que existem vários caminhos para se ser feliz, cabe-nos a nós tentar perceber e conjugar o melhor caminho. Sim, a nós, não quero ser pretensioso mas ouso ser realista! Nós fomos lá e sabemos o que se passa, nós movimentámo-nos cá e sabemos o que se passa, podemos fazer a diferença, podemos lutar por essa diferença. É isso que temos andado a fazer, uns há mais tempo que outros, mas todos nesse caminho. Temos a responsabilidade de partilhar e testemunhar sobre o que vimos e provar e mostrar que existem realidades e formas de estar e ser diferentes da nossa!
O desafio é sermos iguais nas nossas desigualdades, procurar o entendimento onde parece tudo discordar e é isso que temos feito ao longo dos séculos de história da raça Humana. Umas vezes conseguimos outras não, mas isso não impede esta busca constante.
O fazer a diferença é ajudarmos com os nossos valores, com as nossas premissas, por actos e gestos, não só por palavras (sem acção as palavras são vãs, são despojadas de tudo). Podem acusar-nos de não termos os valores correctos. É uma acusação válida, mas covarde. Enquanto seres Humanos temos a obrigação de procurar na nossa vida e em exemplos de outras vidas o que são os valores mais correctos para nós, felizmente temos essa oportunidade, essa liberdade e essa capacidade. Como tal e apesar de vivermos em sociedades que nos impõem valores e princípios, somos livres de navegar por eles e escolhê-los e aplicá-los. Aplicá-los no dia-a-dia, quando falamos, quando fazemos algo.
E para quem julga que poder escolher os valores errados é possível, resta apenas a essa pessoa avançar com eles e esperar que os outros estejam suficientemente atentos para perceber e demover essa pessoa, se isso não acontecer é porque estamos em baixo, estamos desprevenidos e ainda não estamos prontos para evoluir. Sozinhos, não vamos a lado nenhum, sem apoio e sem união ficamos onde estamos, seja para o bem ou para o mal, por isso quando estivermos todos juntos poderemos avançar. Este é e será sempre o grande problema desta Terra de gente sem cor.

Como vêem nenhuma religião aqui é abordada, mas apenas uma filosofia humanística, em que o Homem é o início, o centro e o fim.
Eu confio no ser Humano, na sua capacidade de amar e de ser fiel, de confiar e respeitar. Sei que nem sempre é assim, mas luto por isso e é este o exemplo e os valores que quero transmitir.
Foi o que fiz em Angola durante um mês e o que faço cá.

Se há quem seja egoísta e não ligue aos outros, seja por comodismo, por distracção ou por desinteresse (não sei qual deles pior), também há o oposto e que nos leva avante. A pouco e pouco a consciencialização geral vai aparecendo e convencendo.

Queria salientar ainda a dificuldade extrema que é ir para Angola em voluntariado (falo deste país pois é o exemplo que conheço) sem ser através de uma entidade religiosa! Quero com isto dizer que tanto o governo de lá, por dificultar a entrada das ONG (Organizações Não Governamentais), como as próprias ONG que vivem tempos difíceis (umas associadas a corrupções, outras por terem de se adaptar às constantes alterações governamentais dos seus países de origem ou dos países onde actuam) têm contribuído para um descrédito das causas Humanitárias pelos Países Africanos e, em geral, pelo mundo fora. Isto faz com que estas organizações, que tanto podiam trazer a nível ideológico e prático (uma vez que a grande maioria das instituições religiosas que acolhem e enviam Missionários o façam á luz e sombra dos seus principios religiosos, ou seja têm de se ter crenças e ideologias semelhantes para se poder entrar nestas instituições -felizmente no nosso caso existiu uma abertura enorme e de saudar por parte das Irmãs Doroteias), tenham pouca presença em muitos sítios, e dificulta o crescimento e proliferação de movimentos sociais desprovidos de religião, mas apenas com um fim, a obra em si. Fica assim aberto todo o campo às religiões para ocuparem e expandirem a sua Fé. Apesar de tudo, cada vez que um voluntário que seja vá por uma instituição de cariz religioso, por menos que o seja, não se liberta do teor e de ser associado a essa instituição. Como tal, todo o trabalho desenvolvido é associado à instituição representada pelo voluntário. Deveria isto pesar na decisão de escolha de uma instituição para se fazer voluntariado? Bom, se tivermos em conta que o fim é a obra, independentemente dos meios, talvez não. Mas se quisermos ir mais longe e trazer a confiança das pessoas para algo independente, sim.
Se formos trabalhar em troca de nada e conseguirmos ser recebidos para poder fazer esse trabalho, sem demais complicações, como acontece actualmente com quem trabalha pela Igreja (por exemplo), a coisa seria viável. Contudo é complicado entrar num país e começar a trabalhar, especialmente num país onde a corrupção é o segundo ordenado. As pessoas suspeitam e desconfiam, e porque não o fazer após anos a serem exploradas por nós? Esta é parte da herança que lá deixámos... Restam apenas as instituições de carácter religioso que permaneceram fortes e firmes, que não fugiram e voltaram logo aos seus locais de trabalho antigos. Estas congregações permaneceram fiéis às populações e lutaram pelos seus direitos, estão lá sempre para o bem ou o mal, logo são de confiança. Qualquer ONG ou organização que queira ter sucesso, julgo que tem de seguir este exemplo e ficar por muitos anos a lutar por e com as pessoas.

Como criar as condições e iniciar um projecto, avisem-me quem souber que estou interessado.

Voltando a Angola, ao Freixiel onde ainda me encontro apesar de estar aqui na minha Lisboa, na minha verdadeira e primeira casa (vou ainda mais longe afirmando que é a cidade mais bonita do mundo, em todos os sentidos...).
Sinto uma enorme gratidão e felicidade por ter partilhado os mesmos sítios que as Irmãs Doroteias que levantaram a tanto custo o projecto "Melika", e que estão a levar educação e formação a uma zona de refugiados essencialmente, a uma zona rural e sem posses monetárias.
Mas se todos fossem ricos na simplicidade daquelas gentes, estaríamos tão longe moralmente, estaríamos no paraíso julgo eu, se tal existisse.
Se o projecto é de todas, e por isso deixo sem rosto qualquer irmã, pois teria de agradecer a quem não sei o nome, tal é a massa humana por trás da congregação. Se vos falo sem rosto, apenas por escrito pois acho que falo, em termos de experiência, por centenas, milhares de voluntários por todo o mundo, pois teria de agradecer a todos. Distingo claramente duas Irmãs Doroteias, cujos nomes não direi, não só por respeito, mas também por saber que me alenta e conforma muito saber que aquelas mulheres estão lá e cá a tomar as rédeas deste projecto e a garantir que ele segue em frente. Mais que garantir a sua continuidade, tenho de estar, bem como o mundo no geral, grato por elas terem ousado levantar, levar para a frente tal projecto. Isto sim assemelha-se à definição de herói, mas, mais uma vez por respeito a elas, não farei essa distinção, pois a sua simplicidade, o seu Amor por esta causa é tanto que apelidá-las de algo mais que Irmãs Doroteias seria exceder, por excesso ou defeito, o que elas simbolizam e na verdade são!

Lembro-me de sorrisos, lembro-me de rostos fechados que se abriam perante nós, lembro-me de cânticos, danças, lembro-me do prazer sentido pelos meus explicandos ao perceber algo que eu expliquei, lembro-me do êxtase sentido ao ver que eles perceberam realmente, lembro-me das brincadeiras e correrias, lembro-me de chegar ao fim do dia coberto de terra vermelha dos pés à cabeça, lembro-me do sol nos seus vários crepúsculos, das fotos, dos momentos em grupo e grupos (discussões, partilhas, gritos, risos, choros, confidências, improvisos, disputas, erros, objectivos atingidos, e muita mais coisa que não coloco para não estender mais o texto), lembro-me das galinhas aos saltos no jipe, lembro-me das estradas (ou melhor dos caminhos alternativos e dos buracos, porque não existem estradas...), lembro-me do sabor da fruta, lembro-me dos cheiros (da terra, do ar, das plantas, das pessoas, dos edifícios), lembro-me da Malária (porque a apanhei, embora apenas com um bicho por campo. Por outras palavras, não é nada comparativamente ao que eles estão habituados e é só para dizer que ir a Roma sem ver o Papa é como ir a África e não apanhar Malária), lembro-me de mil e uma coisas que não posso aqui transmitir porque não tenho palavras nem competência para expressar tudo.

A maior frustração de voltar é, para além de ser tudo diferente, não conseguir transmitir os sentimentos, as emoções!
Posso dizer o que fiz, dei explicações de Matemática, História e Física, ouvi as populações (as suas necessidades e problemas, o que lhes corre bem e menos bem), falei com as pessoas das aldeias e cidades por onde passei e partilhei a vida delas, deixei-as tocar em mim como tentei tocar nelas e algumas deixaram. Por outras palavras criei lá raízes e quando assim é custa depois mais partir. No entanto o querer transmitir os momentos em que fui criando estas raízes, os momentos em que senti e vivi as emoções fica tão incompleto por não conseguir passar estes sentimentos. Que sendo tão humanos esses sentimentos, só perante certas circunstâncias podemos realmente vivê-los (porque os sentimos também) que quase tenho vontade de não o fazer. Mas depois sinto a obrigação e o dever de os partilhar porque é para isso que tenho esta oportunidade, é para isso que lá fui, e é para isso que espero lá conseguir voltar.

Já disse praticamente o que tinha a dizer, que a maioria dos jovens não estão muito interessados em ver o mundo como ele realmente é.
Que se vive um pouco uma crise de valores pelo mundo fora.
Que se está a viver num mundo essencialmente material e não social e de direitos humanos, por mais floreado que se coloque à volta do assunto.
Que os políticos têm de olhar para casa urgentemente e reformular a forma de a ver e a interacção dela com o mundo, essencialmente o mundo mais pobre.
Que as pessoas têm de começar a interessar-se mais pelo que as motiva e o que as cativa na sua acção social perante a sociedade em que se movem e as sociedades e culturas existentes por este vasto areal, do qual somos um pequeno grão de areia.
Que por mais insignificante que seja o sítio onde nós, individualmente ou em grupo, trabalhemos, estamos a contribuir para algo melhor e maior, uma Humanidade e um Mundo que por si só não vão a lado nenhum.
Que urge a necessidade de ir aos sítios e ao cerne das questões para as tentar resolver em vez de se andar a evitar e a contornar o que mais incomoda.

As explorações e abusos existem, mas os direitos Humanos foram criados para alguma coisa, bem como a nossa vontade e a nossa voz que se pode fazer ver e ouvir onde quisermos.
Usemos esta oportunidade que temos para fazer a diferença!
Ousemos partir, ousemos voltar e testemunhar!
Mas que quando ousarmos sejamos firmes e fortes nas nossas convicções e nas abordagens e aproximações que fizermos às populações e pessoas das diferentes culturas, raças e crenças que encontrarmos. Não se trata de uniformizar o mundo, trata-se de saber reconhecer as nossas diferenças e com elas caminhar para uma felicidade comum. Trata-se, no fundo, de escalar a pirâmide de Maslow, aproveitando para isso as divergências e diferenças de cada cultura, raça e crença, transformando assim o Homem no que ele é verdadeiramente, o exemplo de que pode ser feito!

Façamos a união que traz a força e ajudemos a erguer o mundo, desta forma ficaremos imortais neste mundo, nem que seja na memória de quem foi ajudado ou de quem ajudou por causa do nosso exemplo, o fim não é ser imortal mas tornar o mundo imortal pelas nossas acções. Quando digo mundo, nesta última frase, já digo a Humanidade pois o estado é tal que ambas as palavras têm o mesmo significado.

Ao reler este texto vejo que sou, como sempre suspeitei, um idealista. Contudo só ganho eu e todos se partilhar as minhas ideias com vocês. Pode ser que alguém se deixe cativar e enverede por um caminho semelhante ao meu e ao de tantos outros Homens e Mulheres que dão o corpo, a cabeça e a alma por causas tão dignas e próprias como esta.

Obrigado por terem lido com paciência até ao fim e deixem críticas, sugestões e perguntas em: nunocru@gmail.com.

Um grande bem hajam,

Nuno Cruz

domingo, 24 de junho de 2007

Reflexão

E se fossemos todos uma necessidade do nosso tempo?

Sim, se o que se passa diante dos nossos olhos nos levasse a agir em conformidade com o que é necessário fazer para que os eventos possam acontecer.

Se o destino e o Homem não forem o centro o que o pode ser? Centro da procura de algo que nos reconforta e dá a energia suficiente para caminhar.

Quando se procurar uma saida, ou um caminho e se tenta ser superior a nós, não se pode pode descurar o facto de estarmos rodeados de outros seres em busca das suas premissas e caminhos!
Quero com isto dizer que a nossa busca interna dos momentos e sentimentos que nos elevam, tanto espiritual como fisicamente, está, à partida, limitada pelos actos e sentimentos dos outros. Se assim não fosse jamais conseguiriamos coabitar com alguem, nem tão pouco estabelecer as regras que nos fazem viver em sociedade.
Numa sociedade regulamentada pelo poder da palavra, da possibilidade de decidir em prol do que julgamos ser melhor e, infelizmente, cada vez mais dependente do dinheiro, o que nos torna cada vez mais materialistas (às vezes mesmo sem o querer ser ou saber) cabe a nós dizer o que podemos fazer para sermos fiéis a essa busca interna, subjacente aos tempos e idades que temos.
Quando tinha 5 anos de certeza que as preocupações dessa altura e o que procurava não era o mesmo que aos 10, 15 nem hoje em dia. Com o avançar da idade eu vou mudando e o mundo muda tambem, uns amigos vêm, outros vão, os familiares desaparecem outros chegam para colmatar esses desaparecimentos e nós vamos construindo uma sólida (ou pelo menos julgamos) fundação para os nossos passos futuros. Com esta premissa começa a surgir a necessidade de encontrar respostas para o que se passa á nossa volta em vários locais. Aqui uns recorrem á religião e outros recorrem a formas mais esotéricas do pensar e do agir.
Surge então a grande questão, o porquê desta absorção do mundo Oriental e as suas formas de sentir e estar (Hinduismo, Budismo e essencialmente Yoga e Taoismo, entre outras) perante a presença tão implementada e forte do Catolicismo e/ou Islamismo neste nosso Ocidente?
A resposta que eu, cada vez mais, encontro é o facto de as primeiras colocarem o Homem no cerne da questão, ou seja, são formas de Humanismo que nos deixam espaço de criação e de idealização do que seria o nosso mundo, fora de ideias pré-concebidas. Por outras palavras podemos criar o nosso céu e julgar o nosso inferno.
Se nos virarmos mais para as religiões ocidentais, somos obrigados a esbater contra uma barreira ideológica preenchida por dogmas e encontros de conciliação constante. Esta ideia confusa que deixei atrás é somente o reflexo das incoêrencias de hoje em dia.
Imagine-se uma pessoa que não acredita em Cristo, nem tão pouco no Judaismo, nem no Islamismo e se ri da Cientologia (cito só algumas das religiões mais visiveis de hoje), será que esta pessoa não pode ter principios tão forte e tão fiéis, tendo uma fé ainda mais credivel em si e nos outros que um Católico tem? Será que esta pessoa está limitada de alguma forma, ou limita o seu pensamento? Na minha opinião não! e mais, está completamente livre de se julgar e encontrar nos caminhos dos outros, deste modo aproximando-se de um "Tao" (caminho) em que a sua busca interior é só e apenas sua, e ainda virada para os seus defeitos/virtudes! No entanto quem acredita nestas formas de religião tambem tem as suas pretensões. Ao não querer dar o passo a seguir ficando-se pelos credos e aceitação de dogmas, demonstra a capacidade de ser fiel e forte tambem a si, pois cria um limite, um espaço onde dá aso a que a sua fé funcione e se mostre como resposta aos seus problemas.
Eu sou Cristão porque acredito no exemplo de Cristo, e nos valores e ideias que ele transmitiu, no entanto não acredito no rumo que a Igreja tomou, nem nas premissas onde assenta algumas das suas ideologias.
Somos auto-suficientes e podemos alcançar por nós as nossas vitórias, auxiliados por "energias", espiritos, forças metafisicas (apenas algo que a nossa ciência hoje em dia não consegue quantificar), talvez, mas sempre seguindo um Tao que é nosso, um caminho que vamos definindo e delimitando ao longo da passagem por outras pessoas e outras culturas.
No Oriente conseguiram ultrapassar o desafio de formar sociedades compativeis com o Homem e com as religiões deste, e estabelecê-las nos principios de busca interna de cada um, delineando, apenas, regras para se poder viver num estado de supremacia social em que prevalece a tentativa de equidade entre todos, ou pelo menos deveria prevalecer mas se perdeu com o tempo e as influências erradas.
No Ocidente perdemo-nos entre a busca de um Ser superior e o nosso Ser interior.
Enquanto não conseguirmos definir o espaço e a necessidade de cada um vamos andar a deambular entre ambos e "programar" e "reprogramar" o que achamos ser essencial para nós e os que nos rodeiam.

Neste aspecto vem a necessidade de nos adaptarmos e sentirmos inseridos em algo, em alguem, que muitas vezes não somos nós!

Procuramos e batalhamos por nós e queremos nessas vitórias ser superiores, queremos nas derrotas não ser inferiores, mesmo tendo perdido, esquecendo-nos muitas vezes do meio termo. É sem dúvida necessário sermos pequenos para poder ser grandes, mas esta magnitude deve ser interior e não exterior nem sob a forma de dominio sobre outrém.

E o que nos vem dizer tanto o Oriente: se perdeste, aprende com a lição e no futuro já sabes como evitar mais uma coisa; quanto o Ocidente: se perdeste é porque não estavas preparado para ganhar e não tinhas adquirido a fé suficiente; é que somos iguais uns aos outros apesar de interpretar de formas diferentes estes modos de estar e ser perante a vida.

Engraçado como a mensagem é a mesma só a forma de a exprimir é diferente. Porque então ficar pela linguística e não passar á "agistica"? Vamos agir e ser superiores ao que nos dizem que não podemos ser, vamos quebrar barreiras e fronteiras na busca de um ser melhor, não superior nem inferior, mas em equidade e equilibrio com os outros.
Se eu procuro saber mais sobre algo devo fazê-lo e é meu dever partilhá-lo com os outros, é a minha responsabilidade social, se alguém quer ouvir ouve, se não, não me compete a mim convencer ninguem com algo mais do que a palvra sobre o que aprendi!

Percebo que com as afirmações em cima se pode entender isto como: ah bom, vamos então inventar algo e ver se pega! De todo esta não é a visão que procuro!
O interior de cada um é pegajoso e único, por isso pode sair dele qualquer coisa boa ou má, mas cabe aos outros que convivem com essa pessoa saber discernir se o que vem dessa pessoa é mau ou bom e na condição de amigos compete a nós falar uns com os outros e partilhar, ao mesmo tempo que vivenciar, informações. Pois está subjacente a esta ideia, o facto de nos irmos conhecendo e procurando tambem, estabelecendo assim relações entre pessoas, entre seres. Isto é um modelo de sociedade, até parecido com o que se vive hoje, no entanto algo utópico tendo em conta a discrepância de conhecimento e vontades que se vivem nos dias que correm.

Temos de nos adaptar então ás vontades de quem manda e aos credos da nossa secção do mundo. Mas associado a isto podemos continuar a procurar e a conciliar o resto connosco e com o Mundo, na tentativa de descobrir o que ele nos quer realmente mostrar.

É isso que fazemos e que pretendemos ao dizer: não, não somos a necessidade do nosso tempo, mas sim a necessidade de sermos nós!

"Faz do mundo os teus caminhos", continuo a adorar esta frase, pois ela resume muita coisa e permite conhecer nos seus meios e locais, os porquês e quantos de quem se assume como seguidor de Yoga, do Taoismo, do Catolicismo, entre todos os outros presentes, estes sim, nos tempos que correm ...

Com sabedoria e conhecimento podemos crescer e assumir sem pretensões o nosso lugar ao sol, único, distinto e em equidade e equilibrio com todos os outros, pois ja aprendemos que ele é mutável e diferente de ser para ser, e como tal deve ser respeitado e promovido estando disponivel apenas a quem estiver disponivel para o ouvir!


Nuno Cruz 24/06/2007

quarta-feira, 20 de junho de 2007

Tempos, o porquê do titulo!

E que dizer daqueles momentos que não sabemos expressar por palavras, simplesmente porque eles não são "expressáveis"???

Quando se quer partilhar algo que nos aconteceu, mas não temos a capacidade de tirar uma fotografia ou fazer um filme com o que nos vai na cabeça. Resta então, talvez, as expressões faciais, o olhar, o sentir, para transmitir estas vivências e outras.
Grande percentagem da informação perde-se porque a telepatia, tambem não está desenvolvida.

É este o motivo pelo qual o blog se chama Tempos, pelo simples facto de que tudo gira em torno deste. Tudo muda e se transforma perante a impassividade do tempo, perante o desprezo da sua grandeza, perante a vida infinita dele.

Resta-nos saber a nós o que fazer com o nosso tempo. Tempo este que vamos preenchendo de momentos e vivências nossas, só nossas, que por mais que se queiram partilhar, tudo o que vai ser dito, escrito ou desenhado vai ser apenas e sempre um esboço, uma sombra do que poderemos querer transmitir.

Uns acomodam-se nas vidas, outros chamam a isso felicidade, uns ainda lutam por causas que não sabem definir ou então perdem-se nas burocracias da vida e das suas envolventes.
No fundo, o que se destaca disto tudo, é o facto de todos tentarmos passar e ocupar de uma forma correcta, para nos, estes nossos ... tempos.

Nuno Cruz 20/06/2007

terça-feira, 19 de junho de 2007

Tu

diz que tens o sol entre as mãos e a poesia no olhar
falas pelo sentido, do sentido que as coisas nao têm
segues os caminhos que jamais homem abriu
procuras a indiferença e no entanto a todos chamas (a todos clamas)
sentes-te bem onde os outros se sentem menos capazes
deixas que a luz ilumine o ser dentro de ti
no fundo, segues por onde seguiu quem nao vê
no fundo, buscas o que procurou quem nao teve
a tua ode é irada e de tanto amor ja nao te apercebes
que a epopeia virada ao descobrimento do teu ser
é como a flor que tem mel sem ser colhido
é como o mar que tem ondas sem se agitar
é como o gelo, frio, esquecido, sem amor
e tu continuas pela estrada fora
alheia a eus e a eles
e quebras quando menos esperas! na demora
de um sentimento falhado, nao correspondido
pelo doce nao produzido, pela lua coalhada
da tua pesada mao na consciência enterrada

Nuno Cruz 19/06/2007

Ó tempo volta para trás!

Ontem tive um dia de reencontros.
É verdade, ao deambular pelos corredores da minha escola antiga (agora de tamanhos tão pequenos!) não pude deixar de me reconhecer em cada um, no tempo em que por eles passava a correr, a gritar, a fugir - das Irmãs ou de algum colega - fosse a brincar, fosse para chegar as aulas a tempo, enfim pelos mais diversos motivos ...

Vem então provar-se a teoria de que estamos sempre bem onde nos sentimos bem e por isso estes locais são um ponto, uma fonte contínua de memórias e momentos que jamais podem ser apagados de quem as tem ou viveu.

Não sentem aquela nostalgia de ser crianças, aquele bichinho presente e que se manifesta quando olhamos para fotos, para livros e lá, longe, vemos um miúdo ou miúda de olhos esbugalhados, cabelo desalinhado, ou mesmo com franjinha e ainda os dentes a nascer?

Pois é, no entando que é feito dessas crianças há tanto tempo desaparecidas do nosso imaginário e que sobrevivem apenas nas fotos, nas lembranças? Temos de lutar por evoluir, crescer, sustentar-nos e por fim gerar novos elementos como nós, mas não podemos deixar passar em branco o facto de termos sido, tambem nós, crianças.
Não quero parecer parado no tempo, mas quero que o tempo pare em mim mais do que o que passa, fazendo assim com que possa dizer hoje e sempre: eu sou assim, mais crescido, mais responsável, mais ... mas mantenho este espirito empreendedor e assíduo na busca do puto que continua a residir em mim.


Nuno Cruz

Missão Angola


-“Missão possível! Lê está lá dentro!”
-“não não, tem um im antes, afinal é impossível!”
-“cala-te não vês o ponto de interrogação no fim?”
-“é assim, vocês não percebem nada, é só para nos juntarmos todos e tornar o im e o ponto no possível!”

É linda a mente de uma criança, a forma como chega às coisas ... se virem a nossa t-shirt percebem estes comentários!

Sem pensar muito no que escrever, vou-o fazendo á medida que a inspiração o permitir.

Assim sendo, começo por elogiar e agradecer o esforço de todos os que não vão em Missão, mas sempre que possível vêm animar e participar arduamente nas nossas reuniões, dando conselhos, fazendo fios, contando piadas, entre outras coisas.

Sim estou a falar de vocês, Irmã Alice, Sara e Ricardo (já sabem o leitão lá nos espera e as fotos do México também, não é só irem para lá gabar-se), entre outros que esporadicamente nos visitam, e ainda aqueles que connosco estiveram por diversas vezes a ajudar nas missas, a Natacha, a Carla, a Sofia, entre tantos outros ... Uns amigos de membros do grupo, outros familiares, mas sempre com o intuito de serem mais uma mão entre as nossas, misturando-se assim na Missão que cada vez é mais de todos e não só dos que vão!
Queria também deixar aqui uma palavra de apreço e carinho á comunidade das Irmãs de Santa Doroteia, que nos têm ajudado sem descanço, seja através da compra de terços e colares, ou ajudando a fazê-los, enquanto nos mimam com lanches e momentos de convívio muito agradáveis.

Um grande obrigado por serem para nós, de certeza que para todos, um exemplo e inspiração para continuar em frente.

Em relação ao grupo é com grande alegria que estamos todos no mesmo barco, neste caso avião, pois é o meio indicado para nos deslocarmos em tão longa viagem e porque nesta altura já temos o capital para o pagar.

Desde o primeiro dia que me senti cativado pela ideia de partir, sem medos, sem mágoas, sem sentimentos de qualquer tipo em relação ao que vamos encontrar em Angola e principalmente sabendo que ainda não conhecia a maior parte dos elementos deste grupo missionário e voluntário do qual me orgulho de fazer parte.

* Começando na Cláudia, sempre responsável mas que cede facilmente a uma brincadeira e nos brinda com o seu sorriso de entre a sua agenda onde aponta religiosamente os ditos e desditos das reuniões. De notar que tenta ainda, curiosamente, defender-se (sem sucesso) quando afirmamos que não percebe muito de primeiros socorros;

* seguindo pelo João com o seu aguçado sentido prático, tanto de brincadeira como de trabalho, associado ao facto de expor os seus pontos de vista em prol de um melhor desempenho do grupo;

* depois vem a Inês que de forma audaz (assustadora apenas ao inicio, depois é fácil habituar) mas eficaz, se faz ouvir e faz ouvir os outros para que haja ordem, enfim sabe impor o respeito e bem que precisamos às vezes;

* passamos pela calada Dulce, pouco fala, no entanto ainda bem que não o faz tanto quanto trabalha se não teríamos não só de estar todos de férias como ainda tínhamos música para muuuuuuuito tempo, tal foi, e é, o empenho, dedicação e habilidade com que ela fez os milhares (sim de certeza que foram milhares) de colares e terços sem os quais ainda estávamos a discutir o que fazer para juntar dinheiro;

* paragem obrigatória nos gatos a mirar a lua á espera que passe a bruxa, curiosamente uma rapariga de seu nome Joana estava perplexa a pedir para que as raxtas lhe crescessem depressa, isto enquanto não lhe desse para começar a fazer macacadas por ter visto a bruxa;

* logo ao lado uma menina e moça algarvia cantava do alto da sua torre pelo príncipe que a viria buscar e levar, sem ser de avião, para além do Cabo do Bojador das ideias e de quem a apelidou de Matilde (ela chama-se Joana para quem não sabe);

* a seguir vem o sempre, prestável Amarante, às vezes indeciso, outras decidido, mas sempre com o objectivo de racionalmente chegar á conclusão certa e mais acertada a cada passo que vamos dando, isto claro que tem de ser somado á sempre boa disposição e facilidade com que por meio de palavras, actos e expressões nos faz rir (como é que não estás em teatro);

* aparece logo de seguida, pela sua altura inconfundível, o Gouveia a fazer uns golpes meio desajeitados de Karaté, enquanto tenta passar as pedras de um malfadado terço pela agulha que teima em alargar quando é apertada e que dá seguimento a um fio com ... mais fio e na ponta, mesmo lá longe um emaranhado original de mais pedras. No entanto reparte, com o Amarante, os créditos pelo belo site que temos e que nos leva a todos os cantos do mundo, permitindo que qualquer pessoa nos veja sem estar ao pé de nós nessa altura;

* A Lisete tenta puxar a camisola do Alex para lhe poder explicar, rindo-se perdidamente com um sorriso que enche a sala e a todos nós de alegria, que o fio estava muito simples e que devia ser mais directo e eficaz nos colares, e ainda, após longo momento de introspecção, que lhe fazia impressão aquela forma de trabalhar;

* entra então em cena a Maria, “o meu nome é: Maria Manuel!!!”, a nossa advogada e membro mais experiente ao ter participado já numa Missão em Moçambique. É bom contar com ela, pois felizmente trabalha bem, ajuda sempre que pode, alimenta colegas com fome sem olhar a despesas e ainda defende disputas que surgem quando queremos decidir onde ir vender e com quem ir, ou então aplicar os seus dotes e artes de convencer as pessoas a agir consoante o que quer com os seus argumentos. De qualquer modo os Santinhos naquela noite também ajudaram não foi Maria? (belas sandes!);

* quando falham os argumentos jurídicos lá está a sempre bem disposta Anabela que, com a certeza de no seu cantinho junto das Irmãs crescer e fazer crescer o sentimento e a Fé que trás dentro de si e quer dar a todos para chegarmos a bom porto, nos faz andar para a frente e moraliza e mobiliza nesta etapa da nossa vida. É o membro que, a par da Cláudia, nos relembra sempre da importante vertente religiosa desta Missão;

* todos somos importantes mas há uma voz que quando se levanta é como Moisés perante o mar, tanto acalma como coloca logo tudo em ordem. É a nossa querida Irmã Judite, ela ajuda, ela brinca, ela ... ficava aqui a noite toda, só tem um defeito, recusa-se preponderantemente a vender-me o telemóvel, á e de vez em quando esquece-se de avisar que está a brincar e faz algumas pessoas levantar-se mais cedo para ir busca-la ... enfim em Angola depois acertamos contas quando caminharmos horas a fio sem parar pelo meio das florestas a caminho das aldeias mais isoladas;

* como para último vem o melhor, é só modéstia, apareço eu (Nuno) aos saltos por trás do grupo todo a gritar “pick me! pick me” enquanto tento convencer, com uma bolacha de cada vez na mão, que devemos trabalhar todos em prol do melhor e sempre incansável no lançamento de ideias utópicas, bom não tanto, há esperança para algumas.



Uau, acho que consegui falar de todos e apanhar o que de melhor temos.

Quanto ao pior, é devido ao facto de queremos tanto ajudar e envolver-nos, que por vezes não dá para retirar aquele espinho que já vem da vida diária, picando ele assim um pouco mais nesse dia. No entanto faz parte da vida em grupo, pois se fosse tudo una dolce vita, não teria piada nem seria estimulante conhecermo-nos nas nossas diferenças e aproximar-nos nas nossas igualdades.

Somos diferentes, em aspecto, em sentimento, em essência e mais importante em alma, como tal compete a cada um descobrir o seu lugar no grupo e o seu lugar no Mundo. Sem dúvida que esta Missão é a porta de um caminho longo e maravilhoso para todos.

Não somos os salvadores do Mundo, nem do Homem, mas somos as mãos do hoje que procuram manufacturar um amanhã diferente. Pior ou melhor só o saberemos quando as mãos de todos forem uma só, com o mesmo destino, a mesma cor, o mesmo sentimento ...

Obrigado a todos.

Nuno Cruz 19/06/2007